Mundo Às Avessas


 
 

Frases Rodriguianas

Nelson Rodrigues agora é considerado o “deus do teatro”, mas em sua época era tido como o demônio contra a moral e a família. Suas peças são polêmicas até hoje. Foi aplaudido e vaiado.

Talvez a característica mais marcante de Nelson seja a contradição. Em tudo ele era contraditório. Para mostrar um pouco dessa personalidade escolhi algumas frases do livro “O Anjo Pornográfico” de Ruy Castro, que li recentemente, e que aliás eu indico com empolgação. Entre parêntesis segue meus comentários.

 

“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.” (realista ou pessimista?)

 

“O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.”  (e por que os filhos continuam nascendo?)

 

“Quem nunca desejou morrer com seu amado, não amou, nem sabe o que é amar.” (isso me lembra Shakespeare.)

 

“Acredito que a maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo. A partir de então, o ser humano passou a fazer muito sexo e nenhum amor. Não passamos do desejo, eis a verdade. Todo desejo, como tal, se frustra com a posse. A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor.” (tã nã nã nã nã... violinos ao fundo...)

 

“Só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando.” (ufa! Não sou uma soturna pobre-diaba nunca!)

 

“Eu posso dizer, sem nenhuma pose, para minha sensibilidade autoral, a verdadeira apoteose é a vaia.” (é, mas são os aplausos que trazem dinheiro)

 

“A estrela está no céu. Quem não vê, não vê. Mas ela brilha do mesmo jeito.” (Ele estava se referindo à magnitude de sua própria obra). (Eu penso isso quando recebo nota baixa)

 

“Se nunca leu Flaubert e nunca leu Baudelaire, então você nunca contemplou as termas de Caracala e nunca comeu ‘escargot’! ” – Frase de um “irmão íntimo” à uma das esposas de Nelson. (Nessa frase está inserido todo o preconceito social que existia na época e que eu acredito existir até hoje. Coincidência ou não, a ”cultura” está nas mãos de quem tem dinheiro)

 

“A massa só serve para parir gênios. Depois que os pariu volta a babar na gravata.” (relativo)

 

“Presidente, o senhor me garante que, ao contrário do que dizem, não há tortura no Brasil?”

Médice respondeu:

“Dou-lhe minha palavra de honra que aqui não se tortura.”

Nelson ficou satisfeito. (Inocente, não?)

 

“Em Brasília todos são inocentes e todos são cúmplices.” (gênio!)

 

“Só as putas são conscientes do valor da virgindade.” (Quando Nelson falou essa frase ele explicava que só existem prostitutas por vocação. Segundo ele, por mais pobre que uma mulher seja nunca se tornará uma prostituta se não houver vocação pra tal profissão. Quanto ao valor da virgindade: qual é o valor da virgindade?)

 

Respostas à uma entrevista:

 

Qual a qualidade que mais aprecia numa mulher?: “A ignorância.” (Ele iria gostar da cantora Vanusa...risonho e límpido!)

 

Qual o defeito que mais condena nela? “Qualquer veleidade intelectual.” (Tomar remédio antes de uma apresentação em público não é nada intelectual)

 

Acredita na diferença entre os sexos? “A mulher nunca precisa de inteligência.” (As mulheres fruta já descobriram isso e concordam com Nelson)

 

Nos seus bate-papos diários depois do trabalho, prefere a presença dos homens ou das mulheres? “Acho o homem extremamente desagradável.”  (Eu não acho não!...Bom, depende do homem)

 

Qual a fase que mais aprecia nas relações com a mulher: namorada, noiva, amiguinha ou “caso”? “Sou admirador da namora.” (Freud explica)

 

Considera que mulher tem de ser boa dona-de-casa? “Considero que a mulher só tem de ser boa dona-de-casa.”  (Os tempos mudaram! Hj as mulheres além de terem do dever de ser boas donas-de-casa têm que trabalhar fora também. Vamos queimar o sutiã outra vez?)

 

Acha que numa mulher não se deve bater nem com uma rosa? “Questão de gosto” (Gosto de quem? Um tapinha não dói?)



Categoria: Quem somos, de onde viemos e...
Escrito por Roberta Maria Carlos às 22h17
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Danilo Gentili: a cara nova do Humor - PT II

Obs 1: Essa é a pt II. Por motivos óbvios (mas q eu não pensei na hora de postar) ela vem primeiro que a I.

Obs 2: Queria ter deixado espaços entre as perguntas, mas a pt II é muito grande e não deu. Enjoy!

 

Sobre o Stand-up Comedy

 

O stand-up comedy nasceu nos EUA, no final do século XIX numa época em que comediante era aquele que contava piadas para entreter o público antes das peças de teatro ou nos intervalos. Os precursores desse tipo de comédia eram os mestres de cerimônia, como eram chamados na época de ouro do rádio, Jack Benny, Fred Allen e Bob Hope, geralmente abriam seus programas com monólogos ou números cômicos. Ser um comediante era considerado um degrau para uma carreira verdadeira no show business.

Os stand-up comedians se apresentavam sozinhos, em pé, daí o nome “stand up”. Buscavam inspiração no cotidiano para fazer seus textos. A improvisação era comum. Com o passar do tempo eles viraram a atração principal.

No Brasil o satnd-up comedy começou a ganhar reconhecimento na década de noventa com o  Diogo Portugal e Bruno Motta.

Hoje, o standy-up comedy é aclamado universalmente e tem grandes nomes como Chris Rock e Jerry Seinfeld. Com essa popularização surgiram muitos stand-up comdedians, mas poucos conseguiram se manter. Críticos apontam como causa a falta de habilidade em  enfrentar um "heckler" (membro da platéia que, por algum motivo, responde ou interage com o show de forma não muito amistosa).

 



Categoria: Matérias
Escrito por Roberta Maria Carlos às 02h45
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Danilo Gentili: a cara nova do Humor - PT I

Atualmente com 29 anos, Danilo Gentili acumula diversos talentos. Além de humorista, cartunista e repórter, mostra que também escreve muito bem os textos que posta no seu blog (www.danilogentili.zip.net), com humor “ácido” e “sóbrio”, ele não perdoa o tema abordado, seja o Papa ou uma cliente de cabeleireiro.

Danilo ganhou notoriedade nacional como “repórter inexperiente” do programa de humor “CQC”, exibido nas noites de segunda na rede Bandeirantes de televisão. O personagem era um iniciante na carreira, muito atrapalhado. Com essas características ele conseguia irritar os entrevistados e matar de rir o telespectador. O quadro foi apontado como primordial para o sucesso do programa.

Fora dos estúdios Danilo se dedica à comédia stand-up, estilo de humor “cara-limpa” no qual o humorista dispensa personagens e fantasias. A agenda está cheia de shows marcados em diversos estados. Os ingressos sempre se esgotam e a platéia sai satisfeita do espetáculo. Ás quartas, Danilo se apresenta no teatro Procópio Ferreira com o Clube da Comédia Stand-up, espetáculo no qual ele divide o palco com Marcela Leal, Marcelo Mansfield e o também repórter do “CQC”, Oscar Filho. No dia 22 de março, após a apresentação, Danilo falou, num bate-papo descontraído, sobre a carreira, projetos e pontos de vista sobre a vida.

Roberta: Como a comédia entrou na sua vida?

Danilo: Desde criança eu faço comédia. Eu escrevo há bastante tempo. Comecei a me apresentar em bares, depois no teatro e depois fui para a tv.

Roberta: Em 2005 você escreveu no seu blog o seguinte comentário: “Não vou mentir para você. Sou pobre, não faço academia e até o momento fracassei.” O que mudou desde então ? Você acha que agora alcançou o sucesso?

Danilo balança a cabeça negativamente.

Roberta: Não? Você é um fracassado?

Danilo: Por que eu não sou? 

Roberta: Porque você era um publicitário. Trabalhava com algo de que não gostava, agora recebe dinheiro para fazer o que gosta. Está certo o que eu estou falando ou você gostava do seu trabalho?

Danilo: Não!Mas só por causa disso eu tenho sucesso?

 

Rogério Morgado, também humorista e amigo de Danilo, contesta: “Você é um vencedor, lógico!” Danilo retruca: “Eu nasci no Brasil, não tenho alternativa aqui. Comecei fracassado. Não posso mudar isso. Sou brasileiro. Agora eu estou trabalhando numa coisa... Mas eu não gostei de trabalhar na TV tanto quanto as pessoas pensam. Estou mais realizado em trabalhar como comediante do que na tv. Por enquanto sou conhecido, mas amanhã ninguém mais lembra. Hoje estou conseguindo viver disso, amanhã não sei. Então não posso falar.”

Uma outra amiga da Band contrapõe indignada: “Olha o seu vídeo hoje! Quantas pessoas acessaram o seu vídeo hoje!”. O vídeo ao qual ela se refere mostra um show no qual uma espectadora interfere diversas vezes durante a apresentação, até o momento em que Danilo perde a paciência e responde com o mesmo humor ácido e preciso de sempre. O vídeo havia sido inserido no You Tube ao meio-dia e em menos de seis horas cinco mil pessoas o acessaram. 

 

Roberta: Quando você trabalhava como publicitário acreditava que podia ganhar dinheiro como comediante?

Danilo balança a cabeça negativamente 

Roberta: Mas de certa forma insistiu. Criou um blog, o divulgou.

Danilo: Eu fiz o meu blog, mas não com essa pretensão. Fiz porque gostava. 

Roberta: Por que você decidiu fazer PP (Publicidade e Propaganda)?

Danilo: Eu queria fazer cinema, mas não tinha dinheiro. PP era a única coisa que eu conseguia fazer com a grana que tinha. 

Roberta: O que o Danilo humorista trouxe do Danilo publicitário?

Danilo: Nada. Eu sou a mesma coisa sempre

Roberta: Como comediante quais são seus planos?

Danilo: Pretendo continuar vivendo de coisas que eu invento, continuar vivendo de criações minhas. Se eu viver a vida toda disso, sem precisar bater cartão, está ótimo. 

Roberta: Além desse projeto, existe mais algum?

Danilo: Penso em escrever um livro infantil ou sobre variedades

Roberta: Você pretende investir em seus personagens? Como o Super Ninguém, por exemplo?

Danilo: Super Ninguém não é um personagem. Ele é uma foto que eu tirei e fiz um orkut.

Roberta: Mas pode dar um ótimo personagem

Danilo: Super Ninguém? Não (tom surpreendido)... Depois que eu sair da TV, na hora em que me mandarem embora, talvez eu tente desenhar. Tenho vários personagens. É só desenhar.

Roberta: Tem algum projeto como cartunista?

Danilo: Se alguém se interessar, talvez eu parta para esse lado.  

Roberta: Por que você não divulga seus personagens na internet?

Danilo: Porque eu não tenho tempo pra desenhar. Meu desenho ta ruim. 

Roberta: Durante algum tempo você usou seu blog antigo (www.danilozero.zip.net) para difundir idéias políticas, como por exemplo, o voto nulo. Por que o conteúdo do seu blog mudou?

Danilo: Eu não faço mais isso porque agora eu tenho o palco. Antes eu não tinha essa opção, por isso eu colocava coisas pessoais no blog. Agora eu o uso para colocar bobeiras. 

Roberta: Mas o texto escrito não teria mais durabilidade, mais repercussão?

Danilo: Veja bem: esse tipo de texto é mais complicado de fazer. Se eu conseguir fazer um texto assim, que seja engraçado, e isso leva um tempo, eu vou fazer durante um, dois ou três anos no palco. Depois eu posto no blog. Por exemplo, o meu do cigarro. “Calhou” de o Ministério da Saúde ir atrás. Eles (Ministério da Saúde) me procuraram para fazer um texto sobre o cigarro e jogar no You Tube. É um vídeo com um texto no estilo daquele do voto nulo.

Esse vídeo já teve quase um milhão e meio de acessos em oito meses. 

Roberta: Você se considera engraçado? O que faz as pessoas rir?

Danilo: Eu não sei, se eu soubesse conseguiria fazer um texto novo todo dia, o pior que eu não sei, por isso que eu demoro tanto tempo. 

http://www.danilogenili.com

 

Não resisti à uma foto de fã: Danilo, eu e Rogério (Romo)



Categoria: Matérias
Escrito por Roberta Maria Carlos às 02h26
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Vídeo-teste 8º elemento do CQC



Categoria: Notícias e Futícias
Escrito por Roberta Maria Carlos às 19h51
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...pra onde vamos - Carta aos internautas

Fato: Na semana passada eu recebi um “sms” de uma amiga confirmando nossa ida ao show do Marco Luque[http://marcoluque.wordpress.com/]. Ela também pedia que eu avisasse outra amiga. No dia do show eu telefonei ao teatro e fiquei sabendo que os ingressos estavam esgotados até o final da temporada. Então liguei para aquela que mandou o “sms”. Não liguei para a outra porque imaginei que, como eu não consegui avisar sobre o passeio, essa última não estava sabendo.

Ledo engano. A amiga que eu não avisei foi ao teatro (vulgo, levou bolo), pois tinha recebido a confirmação pelo orkut. Mas não foi informada de que não teria ingressos porque a minha amiga do “sms” achou que eu iria avisar as duas. E eu achei que uma delas nem iria.

 

Reflexão: Fiquei pensando em qual seria a causa desse mal entendido. Pois bem, acho que as pessoas estão se esquecendo de suas vidas reais. Geralmente não conhecem seus vizinhos, ou sabem muito pouco sobre eles. Mas têm centenas de amigos no orkut. Hoje em dia elas vivem conectadas à rede quase 24 horas. Quando querem chamar alguém pra sair não ligam, mandam scrap. Quando desejam abraçar um amigo mandam os seus “buddies poke” o fazer. Não dizem “eu te amo”, teclam por depoimento. Consideram-se íntimos de pessoas que nunca viram. Não entendem que uma conversa é muito mais do que palavras.

 

Esses dias, quando fui à uma entrevista de emprego, estava conversando com um dos candidatos. Ele me dizia: “Espero realmente conseguir esse emprego, assim poderei visitar minha namorada no fim do ano.”

Eu: “Ah é? E onde ela está morando?”

Ele: Em Manaus

Eu: Nossa! É longe. Deve ser difícil aguentar a distância...

Ele: É [...] Mas pelo menos não vou ter que ir para o Rio Grande do sul, onde mora minha ex.

Eu: Nossa. Mas, de onde você as conhece?

Ele: Da “net”

 

Um pouco depois:

 

Ele: Ninguém que namorou comigo pode reclamar que eu não dou atenção.

Eu: ah é? E como você dá atenção se está tão longe?

Ele: Mando mensagens o dia todo! (tom entusiasmado)

 

Eu poderia me arriscar a dizer que se você está “sozinho/a” e não quer continuar assim não adianta mudar o corte de cabelo, emagrecer, ou algo parecido. Procure o computador mais próximo e dê um “upgrade” no seu profile no facebook, myspace e afins. Se o “look” não está legal não há problema. Dê uma “photoshopada” em todo seu álbum e você ficará tão atraente quanto Brad Pitt ou Scarlett Johansson. Afinal de contas, todas as imagens que vemos deles também são editadas.

Certa vez li a seguinte frase: “viver é algo que geralmente fazemos quando estamos offline”. Ela estava num perfil de orkut que eu estava “fuçando”. Percebi que, ao invés de gastar horas na semana “fuçando” o orkut dos outros eu deveria começar a viver mais e navegar menos na rede.

Ok, a internet é um advento muito importante para humanidade. Mas pode representar um problema quando a vida virtual está em primeiro plano em relação à real. É necessário saber quando está na hora usar os velhos meios de comunicação, como o telefone, por exemplo. Não ter preguiça para fazer isso também representa requisito para não se tornar um “amigo virtual” de um “amigo real”.

 

 



Categoria: Quem somos, de onde viemos e...
Escrito por Roberta Maria Carlos às 05h20
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Um simples par de sapatos - Sistema Irracional

 

 

Ao ler o “Sistema Irracional” (capítulo do livro “Capitalismo Monopolista” de Paul Sweezy e Paul Baran) nos deparamos com várias questões à cerca do capitalismo e suas conseqüências. O texto certamente não responde à todas as nossas dúvidas filosóficas, ao contrário, nos expõe à outras maiores. Mas a irracionalidade do sistema capitalista e a falsa existência do “quid pro quo” na sociedade são teses defendidas com grande habilidade e que não deixam dúvidas para quem lê com o máximo de neutralidade possível.

Qual lógica está implícita em com a mesma nota se comprar um refrigerante ou um quilo de arroz? O refrigerante não é um produto necessário à sobrevivência humana. Já o arroz poderia ser usado para o combate à fome e então diminuiria o número de mortes no mundo. Qual racionalidade explica que esses dois produtos tenham o mesmo valor de mercado se não o têm em importância? A mesma comida que é jogada ao lixo todos os dias pela sociedade poderia acabar com a fome no planeta, mas isso não acontece, o que é mais um indício da irracionalidade do sistema e de que o “quid pro quo” na verdade não existe.

A sociedade criou mecanismos fetichistas, essa é a verdadeira troca de equivalentes, onde o que se troca representa nada mais que um simples fetiche. De maneira que tornou-se impossível comprar um par de sapatos. O que se compra representa o status que a sociedade hegemônica dá ao produto. Na maioria das vezes o consumidor se atenta ao prestígio que ele terá quando portar o objeto comprado. A teia do sistema capitalista é tão complexa que a tentativa de revoltar-se individualmente contra ela seria o mesmo que uma formiga tentar se desprender da teia das aranhas. Mesmo que o consumidor tente por si só comprar apenas sapatos não conseguirá, pois os valores dos pares já são previamente baseados em fetiches.

O capitalismo escraviza o homem na medida em que cria tantos grupos quanto é possível. Quanto mais se especializa mais se separa e mais fácil se torna a dominação. A divisão do trabalho representa um bom exemplo disso. Por meio dela o trabalhador deixa de ter uma visão global da produção, para ter apenas um ponto de vista, ele é privado do conhecimento amplo, isso gera frustração, logo o trabalho acaba por ser um simples meio de vida e o trabalhador explorado tem por normal o fato de o salário ser a única recompensa pra que ele suporte a jornada diária. Os exemplos dados no documentário “Corporation” são ótimos para ilustrar esse triste fenômeno. Em países subdesenvolvidos famílias inteiras trabalham horas sem intervalo ganhando centavos por peça fabricada. As mesmas roupas são vendidas por centenas de dólares.

Na medida em que se torna necessário produzir mais por menos se cria barreiras éticas, as quais o capitalismo não se importa em vencer. Um exemplo disso também foi mostrado no mesmo documentário citado. Para produzir mais leite um hormônio chamado “BST” foi injetado em vacas. Apesar de comprovado que esse hormônio causaria câncer, entre outras anomalias genéticas — como de fato acontece em quem consome — a Monsanto levou o projeto à diante sem preocupar-se com a saúde das pessoas que iriam beber o leite. A mídia tentou de diversas formas encobrir o caso: ofereceu dinheiro aos jornalistas responsáveis pela matéria que ira ao ar, os ameaçaram e por fim tentaram enganá-los. Submetidos a uma prova ética na profissão, os repórteres contrariam os mecanismos do sistema, pelo qual eles deveriam se vender como mais um produto no mercado. Esse caso ilustra como o capitalismo deixou de ser o meio, para se tornar o alvo, tudo é feito para alcançá-lo.

Objetivando apenas o lucro, o sistema capitalista suprimiu qualquer ética, qualquer alvo que não a mais valia. A saúde, a educação, o lazer e tudo mais ficou em segundo plano, no mundo das idéias, das invenções. Porém os mecanismos criados estão tão enraizados na mente humana que mesmo sendo o homem vítima de tal sistema, é capaz defendê-lo. O homem não sabe viver sem explorar e ser explorado já que desconhece na prática outro sistema. Ele não aprendeu comprar um simples par de sapatos. 



Categoria: Quem somos, de onde viemos e...
Escrito por Roberta Maria Carlos às 21h03
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 O Contador de Histórias

Na quinta-feira, dia dois de julho, fui à pré-estreia de “O Contador de Histórias”. Saí de lá maravilhada com a qualidade do filme. Por isso quero recomendar à vocês que o assistam em agosto, quando ele irá estrear. Também resolvi escrever um comentário sobre a obra, pois ela realmente mexeu comigo.

 

Aos seis anos de idade um menino pobre é levado à Febem pela mãe. Com esse início a história tinha tudo para ter um final trágico e comum. Mas não teve. A trajetória de Roberto Carlos Ramos (um dos maiores contadores de histórias, de fama internacional) teve tudo que uma boa narração precisa ter: um grande conflito, personagens intrigantes e um excelente narrador. Além de uma pitada de sorte como elemento fantástico.

Margherit faz o papel “de la chance” na vida de Roberto. Ela o conhece na sua segunda viagem ao Brasil, na qual a pedagoga francesa veio realizar uma pesquisa. A Febem foi o ambiente de trabalho escolhido por ela. Roberto acabara de ser capturado de mais uma fuga quando Margherit se interessa pela história do garoto de cabeça baixa, poucas palavras e que não estava acostumado a ouvir expressões como “por favor” e “obrigada”.

“O Contador de Histórias” tem direção de Luiz Villaça; produção de Francisco Ramalho e Denise Fraga. Maria de Medeiros interpreta a salvadora do suposto incorrigível Roberto. Juntos, técnicos e elenco, conseguiram fazer um filme emocionante, mas sem deixá-lo piegas; com humor, porém sem tirar o tom de realidade que uma produção baseada em fatos deve ter. Essa foi uma das razões pela quais “O Contador de Histórias recebeu o selo da Unesco e Maria de Medeiros foi nomeada pela mesma organização ”artista pela paz”.

“Não foi sorte. Foi trabalho. Eu sabia que um garoto de 13 anos não podia ser considerado irrecuperável”, diz a francesa Margherit, que acreditou em sua afirmação mesmo após ter sido assaltada pelo tal garroto, mesmo depois de presenciar momentos em que ele se drogava.

Se omitissem aos telespectadores que este era um filme baseado em uma história verídica, certamente eles sairiam da sessão pensando ser o enredo puramente fantasioso, “coisa de filme mesmo”. Mas as cenas na telona só reproduziam momentos passados no cotidiano de alguém que venceu apesar de ter tido todos os elementos para o fracasso. Por isso o filme mexe tanto com quem assiste, pois todos nós temos uma “Margherit” dentro de nós. Adormecida com os espinhos da realidade, mas que desperta com alguma possibilidade de solução.

 

Para saber mais acesse: http://wwws.br.warnerbros.com/ocontadordehistorias/



Categoria: cultura e arte
Escrito por Roberta Maria Carlos às 02h59
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“Olha o Rapa aí gente!”

 

 

Paula Rotunno, 60 anos, vende doces em frente à PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) há dois. Antes ela estacionava sua “S10” perto do metrô Sumaré. Mas um dia colocaram uma placa que significava “proibido estacionar” ao lado do seu “ponto”. Sem lugar para parar seu veículo, se viu obrigada a mudar dali.

Ela foi casada com um português durante décadas. Certo dia, repentinamente, o marido fugiu com a amante deixando-a com os dois filhos à mercê da própria sorte. Rotunno passou a procurar emprego. Sem lágrimas nos olhos, ela conta que a recusaram em um cargo de frentista e em muitos outros. Uma vez ofereceram um posto no qual ela ganharia 500,00 reais mensais, mas o condomínio onde morava custava 700,00. “Fui pro fundo do poço. Vendi meu apartamento, lindíssimo, que ficava no Sumaré. Não sabia o que fazer da minha vida. Enfiei um monte de doces no carro e saí para vender”, conta Paula Rotunno, que já havia montado uma loja no antigo shopping Bourbom, a qual faliu por má administração, como confessa ela própria.

No Brasil existem muitas “paulas”. Elas estão nas calçadas, oferecendo suas mercadorias aos pedestres. Suas histórias passam despercebidas aos olhares da sociedade que nem imagina quão perto pode estar da informalidade. Basta que uma fatalidade ocorra. Mas até que isso aconteça a situação dos vendedores ambulantes é apenas problema alheio.

Em quatro anos como vendedora ambulante de doces, Paula Rotunno tem muitas histórias a contar. “Uma amiga minha, Alessandra, que faz artesanato, teve a mão furada quando o ‘rapa’(como são chamados os fiscais que levam a mercadoria dos ambulantes) chegou e tomou as coisas dela. Ela estava com o ‘alicate de bijuteria’ e gritou ‘É meu! É meu!’ — O fiscal a algemou. Até hoje ela tem problema na mão e responde por desacato à autoridade”. Rotunno também conta que outra vendedora ambulante se matou porque ficou desesperada ao ter sua mercadoria levada três vezes seguidas pela Guarda Civil Metropolitana, que é submetida à prefeitura. A vendedora, que tinha seu ponto perto da estação Barra Funda do metrô deixou uma filha de 10 anos de idade e uma carta responsabilizando o prefeito Gilberto Kassab pelo ocorrido.

Os vendedores ambulantes consideram Kassab responsável pela situação em que se encontram porque, segundo eles, o prefeito intensificou a ação contra o comércio informal sem porém aumentar a oferta de emprego. “Se ele quer limpar a cidade, ele que vá à cracolândia, ele que vá despoluir o rio Tietê. O pessoal que expulsa da rua poderia pintar o que esta pichado. Ele deveria nos arrumar emprego. Eu gostaria muito que ele me contratasse como paisagista. Eu iria deixar São Paulo um paraíso florido” — protesta Paula Rotunno. Ela questiona a diferença de tratamento: “Pasteleiro da esquina não pode ter ‘plaquinha’. Mas a avenida Brasil está cheia de clínicas estéticas, escritório de advocacia, todos com anúncios em letras douradas, garrafais, grandes”.

A lei “Cidade Limpa”, como é chamada popularmente, à qual Paula Rotunno se refere agravou ainda mais a situação dos vendedores ambulantes, pois atribuiu a eles mais um crime considerado cometido. Entre os que já estavam na lista, o mais comentado é o da sonegação de impostos. Uma vez que os ambulantes utilizam lugar público e não pagam aluguel, contador, ou qualquer outro imposto que seria recolhido do comércio regular, como o “Siples”, por exemplo. Diante dessa alegação os vendedores se defendem dizendo que a oferta de trabalho formal é pequena e que necessitam das vendas que fazem para sobreviver. “Só não viro prostituta porque estou muito velha pra isso”, afirma Paula Rotunno. “Se eu vendesse maconha, ninguém iria se importar”. Ela se orgulha de ter formado o filho em psicologia, pagar a faculdade da filha, o condomínio, o convênio médico e todo o resto com o dinheiro dos doces.

Rotunno denuncia a ação dos fiscais que disse ter sido presenciada por ela várias vezes: “A ‘metropolitana’ estava dando gargalhada, tomando coca-cola que pegou do pessoal”.  E apesar da indignação confessa que a profissão faz bem a ela: “Eu adoro o que eu faço. Isso aqui é adrenalina pura. Só tem gente bonita, gente alegre, gente jovem. Eu converso com todo o mundo. Não dá tempo de ficar doente. Em casa, eu ficava comendo, envelhecendo e morrendo aos poucos”.  Ela já teve câncer na garganta e se emociona ao comparar duas fotos: a primeira, na qual ela aparece hospitalizada, e a segunda mais recente, na qual ela está maquiada e com um sorriso de orelha a orelha.




Escrito por Roberta Maria Carlos às 00h47
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